RECORDAÇÕES EQUESTRES Lisboa, 16/08/2000
Não foi gostosa a aprendizagem da arte
equestre nem fui longe nas lides com cavalos. Poucas foram as quedas mesmo
naquelas primeiras experiências de montar sòzinho quando ainda não tinha
comprimento de pernas para chegar aos estribos. Lembro um episódio caricato
ocorrido numa das muitas saídas matinais acompanhando meu tio Manuel para uma
vistoria a um rancho ocupado na apanha do figo. Montava um dócil animal, mas
mesmo assim ainda o conduzia inseguro e não consegui evitar que ele se enfiasse
debaixo de uma figueira. Passou com a garupa rente a um grosso ramo onde eu
fiquei abraçado e pendurado para irritação do meu tio que me viu sujeito à
humilhação duma risada geral do pessoal do rancho. Mas na adolescência quando
ganhei algum domínio e à vontade com estes animais pude fruir inesquecíveis
cavalgadas solitárias por recônditas veredas campestres; incursões até aos
contrafortes da Serra d’Aire a Poente e, no sentido contrário, até ao vale do
Rio Nabão a Nascente.
Algumas vezes me aventurei até Tomar
utilizando caminhos secundários que encurtavam bastante a distância. Deixava o
animal num estábulo à entrada da cidade e percorria a pé as ruas tratando de
pequenas incumbências.
O Avô que fizera vezes sem conto esta viagem
a cavalo na sua juventude quase me ralhou quando eu lhe contei que deixava o
animal às portas da cidade em vez de aproveitar para me pavonear pelas ruas
cavalgando a preceito. Esquecia-se que desde o seu tempo de menino e moço até
ao meu, passara mais de meio século e então já não era prático nem seguro
circular a cavalo na cidade. Estou a falar do início da década de sessenta,
altura em que a circulação automóvel ainda não era caótica como hoje. Passear a
cavalo no meio da cidade já não era comum, embora ainda houvesse muita carroça
e alguns asnos e mulas a circular, mas o que entristecia o meu Avô era o facto
de eu não ter nascido com vocação de marialva e de não tirar partido de tão
belas oportunidades para dar nas vistas às meninas da cidade.




