domingo, 13 de setembro de 2026

"O Almonda" pela escrita e orientação de Alberto Dinis da Fonseca, Carlos Azevedo Mendes e Augusto Azevedo Mendes

 

I - Introdução

O objectivo deste artigo é analisar e tentar caracterizar o envolvimento de três figuras de grande impacto na sociedade torrejana no passado século XX, e na vida deste semanário – Alberto Dinis da Fonseca, Carlos Azevedo Mendes e seu irmão Augusto Azevedo Mendes.  Deixarei de fora outras figuras com participação regular e também marcante neste jornal como sejam o Padre Maya, Artur Gonçalves, Gomes Santos, Faustino Bretes e ainda Manuel Pinho. Também não abordarei temas culturais e desportivos que, com maior ou menor relevância, estiveram sempre presentes neste semanário.

Embora na maioria das vezes Alberto, Carlos e Augusto não assinem os seus artigos é possível com alguma certeza determinar a autoria pelo estilo próprio da escrita de cada um. Augusto também usa vários pseudónimos como “Mirone”, “Spectator”, “Olímpio” ou simplesmente as letras “A” ou “AM”(1).

Delimitarei a minha análise ao período temporal que vai desde 19 de Junho de 1921 (nº100) até final de 1962 (nº2270) que foi o ano em que faleceram Alberto Dinis da Fonseca e Carlos Azevedo Mendes (seu irmão Augusto falecerá em 1969).

Considerarei quatro períodos neste longo percurso da década de 20 até à década de 60 do século passado. 

 

II – Períodos a Considerar

1º período    1921 – 1925   Cruzada da “Boa Imprensa” e defesa do Centro Católico

Corresponde à Direcção (embora não assumida publicamente) de Alberto Dinis da Fonseca, em que o jornal é completamente capturado pela cruzada da “boa imprensa”, movimento que pugnava pela reconquista da liberdade de culto (entenda-se católico) e pela liberdade do ensino religioso nas escolas. O torrejano D. Manuel Mendes dos Santos (arcebispo de Évora) e o causídico Alberto Dinis da Fonseca são duas figuras centrais desta cruzada. Durante este período nasce o “Centro Católico” partido de que Alberto se torna o leader local e que defende nas páginas do “seu” jornal.  Este período termina com o Dr. Alberto a entregar a Direcção deste jornal ao seu amigo e correligionário do Centro Católico, Carlos Azevedo Mendes.

 

 

2º período      1926 – 1934      O corporativismo em marcha e o apoio às obras de assistência locais

Carlos Azevedo Mendes afirma-se localmente como Provedor da Misericórdia e como leader dos interesses políticos ligados à Igreja. Exerce a Direcção efectiva do jornal ao qual consegue dar um cunho mais regionalista, defende nas suas páginas os interesses económicos locais e a nascente politica corporativa que o seu antigo colega de Coimbra, Salazar, começa a pôr em marcha. A doutrina social da Igreja e o magistério do Papa e bispos são temas de 1ª página com frequentes transcrições e comentários. Já no capítulo da doutrinação tanto cívica como moral ressaltam os artigos de Augusto Azevedo Mendes em defesa do conceito de família cristã e de luta contra a pobreza, luta essa baseada na virtude da Caridade. Este médico, bem conhecedor da grande miséria existente no Concelho, fruto das frequentes visitas domiciliárias que faz, clama sem grande sucesso por melhores condições de habitação e higiene para os operários e trabalhadores da vila e do concelho. As iniciativas de caracter assistencial levadas a cabo pela Misericórdia têm também no Almonda grande divulgação e patrocínio pela pena tanto de Carlos como de Augusto.

 

3º período   1935 – 1950      Continuação da defesa do “salazarismo”, apoio crítico ao fascismo, ao nacional socialismo e apoio incondicional ao franquismo

A importância política de Carlos Azevedo Mendes afirma-se a nível nacional com a nomeação para representante das Misericórdias na primeira legislatura da Câmara Corporativa. Também a nível local Carlos Azevedo Mendes é nomeado para Presidente da Comissão Administrativa da Câmara de Torres Novas. A ocupação destes cargos implicará um inevitável afastamento do dia a dia do jornal. Este afastamento é compensado pela presença assídua e regular de seu irmão Augusto nas páginas do Almonda. A doutrinação corporativa e a defesa do Estado Novo são preocupações constantes, ao lado do apoio aos colégios locais e às iniciativas assistenciais. Os temas do fascismo em Itália, do Nacional-Socialismo na Alemanha, bem como a guerra civil em Espanha e a consequente segunda grande guerra são versados por ambos os irmãos como veremos. A política de neutralidade de Salazar durante este conflito é também defendida e louvada.

Em Abril de 50 Carlos Azevedo Mendes deixa a presidência da Câmara mas continua como deputado na Assembleia Nacional para onde tinha entrado no início da IV Legislatura em 1945.

 

4º período 1951 – 1962    O aparecimento mais notório da contestação ao regime a nível interno e internacional e a continuação da defesa acérrima e crispada do Salazarismo e do mito do “Império”.

Passado o período de maior aceitação da política de Salazar a nível nacional, fruto do saneamento das contas públicas e da política da neutralidade activa durante a guerra de 39 a 45, começa a aumentar a contestação ao regime tanto a nível interno como internacional. Carlos e Augusto dramatizam as posições nos seus escritos acenando com o papão do bolchevismo e da anarquia (ou nós ou o caos).

As eleições presidenciais de 1951, com o aparecimento da candidatura de oposição ao regime, são tratadas no Almonda com artigos que tentam lançar o descrédito sobre a figura de Norton de Matos e apelam com insistência à defesa do partido único, a “União Nacional “, e do seu candidato Craveiro Lopes. Igualmente acontece em 1958 com a defesa do candidato Almirante Américo Tomás e ataques ao General Humberto Delgado (apesar deste ser filho do Concelho de Torres Novas).

Em 1957, no final da VI legislatura, Carlos Azevedo Mendes, deixa a vida política activa, mas continua em Torres à frente da Misericórdia local e deste jornal, até à data do seu falecimento.

 

sábado, 12 de setembro de 2026

O percurso autárquico de Carlos Azevedo Mendes (1935 a 1950)

 "Nova Augusta" nº31   2019 

Este trabalho tem como fonte principal e quase única as actas das reuniões das sucessivas vereações, desde 21 de Agosto de 1935, data da tomada de posse da Comissão Administrativa presidida por Carlos Azevedo Mendes até 10 de Abril de 1950, altura em que termina funções por causa da incompatibilidade do cargo com o exercício da advocacia.

Introdução

São perto de 15 anos de vida autárquica que correspondem também à afirmação e consolidação do “Estado Novo” a nível nacional. Neste processo Carlos Azevedo Mendes teve um papel activo como figura muito próxima de Salazar a quem o ligavam laços de amizade desde o tempo de estudante em Coimbra. O modelo centralizador e autoritário do Chefe do Governo foi em parte replicado por Carlos Azevedo Mendes na autarquia de Torres Novas mas havia um diferença de estilo importante: enquanto Salazar se fechou na redoma do seu gabinete onde só entravam meia dúzia de “escolhidos” e “yes men”(1), Carlos Azevedo Mendes cultivava alguma proximidade  popular e não fugia à confrontação com os seus opositores políticos locais. Até finais de 1945 o papel da restante vereação é secundário, limitando-se a aprovar sistematicamente as propostas do presidente. A intervenção de Carlos Azevedo Mendes na sessão de 9 de Janeiro de 1936 sobre o Recenseamento Eleitoral é paradigmática : “Pelo Presidente foi declarado que fará ele próprio parte da Comissão concelhia organizadora do recenseamento eleitoral não nomeando pois qualquer delegado”. A partir de 1946 com a acumulação de funções de deputado e de presidente da Câmara, Carlos Azevedo Mendes começa a entregar progressivamente a gestão camarária nas mãos do Vice- Presidente, Dr. António Alves Vieira, até que, com a sua demissão em 10 de Abril de 1950, este passa a substituí-lo primeiro interinamente e depois definitivamente.

Na análise de mais de 600 actas das reuniões camarárias do período acima referido, privilegiaremos as intervenções de carácter mais social e político. Deixaremos de fora a contabilidade autárquica, sua politica fiscal, pagamentos (que vinham todos às sessões camarárias), licenciamentos e as redes escolares e viárias da responsabilidade do município. A questão da estrada de Argea para o Entroncamento que aparece logo no início será uma excepção pelo grande cunho político que teve.

 

 

([1]) Curiosamente registam-se duas excepções no comportamento típico de Salazar durante este mandato: uma ida ao Entroncamento com o Ministro das Obras Publicas por causa da questão da Estrada de Árgea e a visita surpresa que fez à Exposição/Feira de Produtos Regionais em Santarém.


Clicar em cima do texto para ver a o mesmo ampliado

Carlos Azevedo Mendes e os Congressos das Misericórdias


 Revista "Nova Augusta" nº30   2018





segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O percurso político de Carlos Azevedo Mendes como procurador à Câmara Corporativa (1935-1938) e deputado à Assembleia Nacional (1945-1957)

 publica-se a introdução deste artigo, saído na Revista Nova Augusta nº28 do ano de 2016:

 

INTRODUÇÃO

O presente artigo pretende abordar a actividade política de Carlos Azevedo Mendes na Câmara Corporativa e na Assembleia Nacional entre as décadas de trinta e cinquenta do século passado[1]. Na Câmara Corporativa, foi procurador em representação das misericórdias, tendo sido escolhido em Assembleia Geral, realizada em Coimbra em 1934. Cumpriu o mandato de três anos entre 1935 e 1938, na primeira legislatura desta Câmara, integrado na secção de “Interesses Espirituais e Morais”. Na Assembleia Nacional, foi eleito pelo círculo de Santarém para as IV, V e VI legislaturas, entre 1945 e 1957, tendo exercido o mandato de deputado em acumulação com a presidência da Câmara de Torres Novas entre 1945 e 1950.

A sua presença nas duas câmaras constitui uma continuação do seu envolvimento político desde o tempo da sua vida estudantil, num aggiornamento ideológico ligado à acção católica. Neste contexto importa fixar algumas coordenadas: presidente do Centro Académico de Democracia Cristã (Coimbra, 1910-1911, no último ano da sua licenciatura em direito); procurador à Junta Distrital de Santarém (1917-1926); secretário-geral do Segundo Congresso do Centro Católico Português (1922, sendo António de Oliveira Salazar um dos outros secretários); candidato a senador pelo Centro Católico pelo círculo de Santarém (1925)[2].

Enquanto a eleição para procurador da Câmara Corporativa em 1935 parece resultar dum processo genuíno em que Carlos Azevedo Mendes é indigitado a partir de uma Assembleia Geral a nível nacional das misericórdias[3], já 10 anos depois a eleição para deputado resulta duma nomeação política ditada pela confiança pessoal que Salazar deveria ter no seu antigo colega e companheiro de luta no Centro Académico de Democracia Cristã de Coimbra[4]. As listas para deputados para a Assembleia Nacional eram objecto de especial atenção do chefe do governo e para as quais pedia ou aceitava a colaboração de algumas figuras políticas que lhe estavam mais próximas[5]. Depois, os nomes escolhidos tinham a eleição garantida pela mão do partido único – a União Nacional[6].



[1] No âmbito da preparação deste artigo, cumpre-me agradecer à Drª. Manuela Poitout, ao Dr. Rui Costa (Bibliotecário da Assembleia da República) e ao Doutor Nuno Estevão Ferreira (Centro de Estudos de História Religiosa, Universidade Católica Portuguesa) todo o apoio prestado no domínio das suas especialidades.

[2] Sobre a actividade política de Carlos Azevedo Mendes, veja-se Manuela Poitout, «Carlos de Azevedo Mendes: religião e poder em Torres Novas na primeira metade do século XX», Revista Nova Augusta, nº 24 (2012): 22-30; Marta Carvalho dos Santos, «Mendes, Carlos de Azevedo (1888-1962)», em Dicionário biográfico parlamentar (1935-1974). Vol. II (M-Z), dir. Manuel Braga da Cruz e António Costa Pinto, com a colaboração de Nuno Estevão Ferreira (Lisboa: ICS, Assembleia da República, 2005), 119-120; Rita Almeida Carvalho, A Assembleia Nacional no Pós-Guerra (1945-1949) (Lisboa: Ed. Assembleia da República, 2002), 246. Veja-se, também, Joaquim Rodrigues Bicho, Torrejanos de vulto (Torres Novas: Edição dos Serviços Culturais da Câmara Municipal de Torres Novas, 1999), 47-50; Victor Manuel Lucas Rosa, Soudos Memórias do passado e depoimentos do presente (Torres Novas: Edição da Câmara Municipal de Torres Novas, 2003), 85-88.

[3] As atas da eleição podem ser consultadas no arquivo histórico da Misericórdia de Coimbra. A eleição do representante das misericórdias para a 1ª Legislatura da Câmara Corporativa (1935-1938) foi um processo muito participado. Pela importância, tradição e centralidade geográfica, terá sido a Misericórdia de Coimbra a escolhida para organizar a assembleia eleitoral e o seu provedor encarregue de receber as credenciais de todas as instituições e preparar os cadernos eleitorais. O acto realizou-se no dia 6 de Dezembro de 1934 com a presença ou representação de 108 Misericórdias (só faltaram a esta eleição 5). Não encontrei o caderno eleitoral desta primeira eleição mas é possível fazer o levantamento das representações para este acto - encontram-se arquivadas numa pasta do arquivo da Misericórdia de Coimbra, mas misturadas com as representações para a segunda eleição em 1938, onde consta o respectivo caderno eleitoral. O resultado do escrutínio eleitoral deu como mais votado o provedor da Misericórdia de Torres Novas, Dr. Carlos Azevedo Mendes com 64 votos – cf. Arquivo da Misericórdia de Coimbra, Livro das Actas das Eleições dos Provedores Procuradores na Câmara Corporativa e Outras, 1ª acta, fl. 2. Refira-se que na segunda eleição, em 20 de Novembro de 1938, Carlos Azevedo Mendes além de representar por direito próprio a Misericórdia de Torres Novas, representava também mais outras 11, a saber: Aljubarrota, Campo Maior, Ericeira, Fão, Funchal, Miranda do Douro, Paredes de Coura, Ponta Delgada, Salvaterra do Extremo, Valença e Vila do Porto. Esta segunda assembleia terá sido bastante conturbada e com vários votos de protesto. Carlos Azevedo Mendes foi o terceiro provedor mais votado.

[4] Em Fevereiro de 1911, sob a presidência de Carlos Azevedo Mendes, a sede do CADC é incendiada por elementos das hostes republicanas que não viam com bons olhos os chamados reaccionários da altura (ou "A Católica" como apelidavam os militantes do CADC). A actividade do CADC foi retomada no ano lectivo seguinte sob o impulso, entre outros, de Oliveira Salazar e Gonçalves Cerejeira. Contextualizando o CADC na acção católica, veja-se Joana Brites, «Construir a história. A sede do CADC em Coimbra», Lusitania Sacra, 2ª série, 19-20 (2007-2008), 121-169; J. M. Tavares Castilho, Os Procuradores da Câmara Corporativa (1935-1974) (Lisboa: Texto Editores, 2010), 29-31, António Araújo, Os sons dos sinos. Estado e igreja no advento do salazarismo (Coimbra: Tenacitas, 2010).

[5] Cf. Carvalho, A Assembleia Nacional no Pós-Guerra, 83-85; J. M. Tavares Castilho, Os Deputados da Assembleia Nacional 1935-1974 (Lisboa: Ed. Assembleia da República e Texto Editores, 2009), 231-232.

[6] Pelo prisma das oposições, veja-se a falta de democraticidade do processo eleitoral no Estado Novo, em Mário Matos Lemos, Oposição e eleições no Estado Novo / coordenação, introdução e conclusão de Luís Reis Torgal (Lisboa: Assembleia da República, 2012).


domingo, 6 de setembro de 2026

Anúncio

 Tenciono publicar durante a semana as introduções aos quatro artigos da minha autoria publicados na revista "Nova Augusta".

Quem estiver interessado em ler algum ou alguns dos artigos na íntegra, poderão solicitá-los no espaço reservado a comentários.

Os quatro artigos, como já informei anteriormente, têm os seguintes títulos:

"O percurso político de Carlos Azevedo Mendes"

"Carlos Azevedo Mendes e os Congressos das Misericórdias"

"O percurso autárquico de Carlos Azevedo Mendes"

" O Almonda pela escrita e orientações de Alberto Dinis da Fonseca, Carlos Azevedo Mendes e Augusto Azevedo Mendes"



sábado, 5 de setembro de 2026

Cândido, Carlos e Augusto

 

No próximo número da revista Nova Augusta, a publicar no final do corrente ano, sairá a segunda parte do artigo “Azevedo Mendes, uma Família Torrejana” dedicada aos três irmãos mais novos da 1ª geração “Azevedo Mendes” – Cândido, Carlos e Augusto.

Apresentam-se agora fotos dos três manos, na adolescência, na idade adulta e na velhice: