sexta-feira, 19 de junho de 2026

Viagens de Breque até Árgea

 

Parte das minhas férias escolares e da São, nos anos cincoenta, eram regularmente passadas nos Soudos. Aí estávamos entregues aos Avós e também aos tios Manel e Bugia, ainda solteiros.

Nos últimos anos de vida da nossa bisavó Teodora, já ela estava acamada e doente, acompanhámos a Avó Victória algumas vezes nas suas visitas à sua mãe em Árgea. Das viagens de carro, conduzidos por um dos tios, não guardo especiais recordações, para além da poeirada que a viatura levantava nas estradas ainda não alcatroadas.

Guardo sim recordações das vezes que fizemos essa viagem no breque, puxado por uma parelha de cavalos ou de mulas. Foram estas viagens feitas sempre aos Domingos, altura em que o cocheiro Manuel Faria estava disponível do seu trabalho de conduzir galeras. Não consta que tivesse direito a horas extraordinárias (outros tempos…).

Poucos kms separam os Soudos de Árgea, mas a viagem de breque já dava tempo para saborear a paisagem e observar com pormenor o casario e seus aldeões ao atravessarmos a Lamarosa, quase sempre seguidos em correrias pelos “cachopos” da terra. Em vez de me instalar na parte traseira do breque, onde se sentavam a Avó e a São, cobertas e resguardadas pela capota de lona da viatura, eu preferia sentar-me ao lado do cocheiro para apanhar a brisa da tarde, observar os animais no seu trote ligeiro nas partes planas do caminho e no seu penoso passo a vencer as ladeiras, observar também os campos com os seus olivais, vinhedos, hortas com seus poços, searas e figueirais com o seu odor característico, observar também os pequenos ribeiros, quase secos pelo estio, nas baixas, antes de passar à entrada de Pé de Cão e antes de chegar a Árgea. Aí éramos saudados por um grupo de miúdos para quem a chegada do breque era um acontecimento na tarde dos seus pachorrentos domingos.

Manuel M A M Mourão

 

Escrito em 19 de Junho de 2026

 

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