Parte das minhas férias escolares e da São, nos anos
cincoenta, eram regularmente passadas nos Soudos. Aí estávamos entregues aos
Avós e também aos tios Manel e Bugia, ainda solteiros.
Nos últimos anos de vida da nossa bisavó Teodora, já ela
estava acamada e doente, acompanhámos a Avó Victória algumas vezes nas suas
visitas à sua mãe em Árgea. Das viagens de carro, conduzidos por um dos tios,
não guardo especiais recordações, para além da poeirada que a viatura levantava
nas estradas ainda não alcatroadas.
Guardo sim recordações das vezes que fizemos essa viagem no
breque, puxado por uma parelha de cavalos ou de mulas. Foram estas viagens
feitas sempre aos Domingos, altura em que o cocheiro Manuel Faria estava
disponível do seu trabalho de conduzir galeras. Não consta que tivesse direito
a horas extraordinárias (outros tempos…).
Poucos kms separam os Soudos de Árgea, mas a viagem de
breque já dava tempo para saborear a paisagem e observar com pormenor o casario
e seus aldeões ao atravessarmos a Lamarosa, quase sempre seguidos em correrias
pelos “cachopos” da terra. Em vez de me instalar na parte traseira do breque, onde
se sentavam a Avó e a São, cobertas e resguardadas pela capota de lona da
viatura, eu preferia sentar-me ao lado do cocheiro para apanhar a brisa da
tarde, observar os animais no seu trote ligeiro nas partes planas do caminho e
no seu penoso passo a vencer as ladeiras, observar também os campos com os seus
olivais, vinhedos, hortas com seus poços, searas e figueirais com o seu odor
característico, observar também os pequenos ribeiros, quase secos pelo estio,
nas baixas, antes de passar à entrada de Pé de Cão e antes de chegar a Árgea.
Aí éramos saudados por um grupo de miúdos para quem a chegada do breque era um
acontecimento na tarde dos seus pachorrentos domingos.
Manuel M A M Mourão
Escrito em 19 de Junho de 2026
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