I - Introdução
O objectivo deste artigo é analisar e tentar caracterizar o
envolvimento de três figuras de grande
impacto na sociedade torrejana no passado século XX, e na vida deste semanário
– Alberto Dinis da Fonseca, Carlos Azevedo Mendes e seu irmão Augusto Azevedo
Mendes. Deixarei de fora outras figuras
com participação regular e também marcante neste jornal como sejam o Padre
Maya, Artur Gonçalves, Gomes Santos, Faustino Bretes e ainda Manuel Pinho. Também
não abordarei temas culturais e desportivos que, com maior ou menor relevância,
estiveram sempre presentes neste semanário.
Embora na maioria das vezes Alberto, Carlos e Augusto não
assinem os seus artigos é possível com alguma certeza determinar a autoria pelo
estilo próprio da escrita de cada um. Augusto também usa vários pseudónimos
como “Mirone”, “Spectator”, “Olímpio” ou simplesmente as letras “A” ou “AM”(1).
Delimitarei
a minha análise ao período temporal que vai desde 19 de Junho de 1921 (nº100)
até final de 1962 (nº2270) que foi o ano em que faleceram Alberto Dinis da
Fonseca e Carlos Azevedo Mendes (seu irmão Augusto falecerá em 1969).
Considerarei
quatro períodos neste longo percurso da década de 20 até à década de 60 do
século passado.
II – Períodos a Considerar
1º período 1921 – 1925 Cruzada da “Boa Imprensa” e defesa do Centro
Católico
Corresponde à Direcção (embora não
assumida publicamente) de Alberto Dinis da Fonseca, em que o jornal é
completamente capturado pela cruzada da “boa imprensa”, movimento que pugnava
pela reconquista da liberdade de culto (entenda-se católico) e pela liberdade
do ensino religioso nas
escolas. O torrejano D. Manuel Mendes dos Santos (arcebispo de Évora) e o
causídico Alberto Dinis da Fonseca são duas figuras centrais desta cruzada.
Durante este período nasce o “Centro Católico” partido de que Alberto se torna
o leader local e que defende nas páginas do “seu” jornal. Este período termina com o Dr. Alberto a
entregar a Direcção deste jornal ao seu amigo e correligionário do Centro
Católico, Carlos Azevedo Mendes.
2º período 1926 – 1934 O corporativismo em marcha e o apoio às
obras de assistência locais
Carlos Azevedo Mendes afirma-se localmente como Provedor da
Misericórdia e como leader dos interesses políticos ligados à Igreja. Exerce a Direcção
efectiva do jornal ao qual consegue dar um cunho mais regionalista, defende nas
suas páginas os interesses económicos locais e a nascente politica corporativa
que o seu antigo colega de Coimbra, Salazar, começa a pôr em marcha. A doutrina
social da Igreja e o magistério do Papa e bispos são temas de 1ª página com
frequentes transcrições e comentários. Já no capítulo da doutrinação tanto
cívica como moral ressaltam os artigos de Augusto Azevedo Mendes em defesa do
conceito de família cristã e de luta contra a pobreza, luta essa baseada na
virtude da Caridade. Este médico, bem conhecedor da grande miséria existente no
Concelho, fruto das frequentes visitas domiciliárias que faz, clama sem grande
sucesso por melhores condições de habitação e higiene para os operários e
trabalhadores da vila e do concelho. As iniciativas de caracter assistencial
levadas a cabo pela Misericórdia têm também no Almonda grande divulgação e
patrocínio pela pena tanto de Carlos como de Augusto.
3º período 1935 – 1950 Continuação da defesa do “salazarismo”,
apoio crítico ao fascismo, ao nacional socialismo e apoio incondicional ao
franquismo
A importância política de Carlos Azevedo Mendes afirma-se a
nível nacional com a nomeação para representante das Misericórdias na primeira
legislatura da Câmara Corporativa. Também a nível local Carlos Azevedo Mendes é
nomeado para Presidente da Comissão Administrativa da Câmara de Torres Novas. A
ocupação destes cargos implicará um inevitável afastamento do dia a dia do
jornal. Este afastamento é compensado pela presença assídua e regular de seu
irmão Augusto nas páginas do Almonda. A doutrinação corporativa e a defesa do
Estado Novo são preocupações constantes, ao lado do apoio aos colégios locais e
às iniciativas assistenciais. Os temas do fascismo em Itália, do
Nacional-Socialismo na Alemanha, bem como a guerra civil em Espanha e a
consequente segunda grande guerra são versados por ambos os irmãos como
veremos. A política de neutralidade de Salazar durante este conflito é também
defendida e louvada.
Em Abril de 50 Carlos Azevedo Mendes deixa a presidência da
Câmara mas continua como deputado na Assembleia Nacional para onde tinha
entrado no início da IV Legislatura em 1945.
4º período 1951 – 1962 O aparecimento mais notório da contestação
ao regime a nível interno e internacional e a continuação da defesa acérrima e
crispada do Salazarismo e do mito do “Império”.
Passado o
período de maior aceitação da política de Salazar a nível nacional, fruto do
saneamento das contas públicas e da política da neutralidade activa durante a
guerra de 39 a 45, começa a aumentar a contestação ao regime tanto a nível
interno como internacional. Carlos e Augusto dramatizam as posições nos seus
escritos acenando com o papão do bolchevismo e da anarquia (ou nós ou o caos).
As eleições presidenciais de 1951, com o aparecimento da
candidatura de oposição ao regime, são tratadas no Almonda com artigos que
tentam lançar o descrédito sobre a figura de Norton de Matos e apelam com
insistência à defesa do partido único, a “União Nacional “, e do seu candidato
Craveiro Lopes. Igualmente acontece em 1958 com a defesa do candidato Almirante
Américo Tomás e ataques ao General Humberto Delgado (apesar deste ser filho do
Concelho de Torres Novas).
Em 1957, no final da VI legislatura, Carlos Azevedo Mendes,
deixa a vida política activa, mas continua em Torres à frente da Misericórdia
local e deste jornal, até à data do seu falecimento.
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